“There’s no place like…salas de espera”

Pouco amenas e cheias de (im)pacientes. A música ambiente preferida é «As saudades que eu já tinha da minha bela casinha/» dos Xutos e não há leitura melhor que “Estórias Abensonhadas” do Mia Couto, para fugir ao pesadelo que é estar naquelas salas, à espera.

Mas as perguntas são muitas e para conhecer a história da senhorita Insuficiência Renal Crónica (IRC), não há como lhes fugir.

“Olha lá, quem te mandou pra’qui?”

“Vieste a pé ou apanhaste a carreira das dez?

“Tens a certeza que não compraste bilhete de ida?”

E a danada sem pio.

“Conta lá a tua história, de fio a pavio!”– ordenamos. E assim começou (ufa!) a nossa história de amor pelas salas de espera.

O primeiro capítulo desenrola-se no Hospital Santo António para realizar uma Cistografia. Cisto-quê??

As causas da IRC podem ser muitas, e uma delas tem o nome grandalhão de refluxo vesico-ureteral por malformação congénita (acabou-se o lápis quando o senhor arquitecto chegou à parte do sistema urinário!). E quando está presente, se não lhe conhecermos o rosto, a doença renal dos pequenos pode agravar-se.

Vamos tentar descomplicar.

A cistografia é um exame radiológico importante para os senhores de bata branca conhecerem as duas autoestradas (ureteres) que levam a urina (dos rins) até à bexiga, parque de estacionamento temporário. Diz-nos se há refluxo vesico-ureteral.

Os ureteres, ao entrarem na bexiga, têm de passar por um túnel que deve fechar logo a seguir à passagem da urina, evitando a sua marcha-atrás e o regresso aos feijões. Ora, quando os arquitectos (outravez  estes senhores!) não desenham bem o túnel, há sempre urina estacionada na bexiga (com avença de estacionamento sem data de fim), facilitando a visita das infecções urinárias, e que ao refluir para os rins podem provocar-lhes marcas definitivas que podem causar Insuficiência Renal.

E como se faz?

No incio do exame, depois de uma desinfecção cuidada e de colocar  anestésico local, introduziram uma sonda (fininha para ele… do tamanho do túnel do Marão aos olhos dos papás!) na uretra do Tiago e, por aí, injectaram um líquido chamado contraste. Se houver refluxo, este contraste dá nas vistas e através de um ecrã vemo-lo a subir para um (refluxo unilateral) ou para os dois (refluxo bilateral) ureteres (ou para nenhum) e regressar aos rins. Existem vários graus (que nem os níveis dos jogos da consola!) para caracterizar o refluxo (o Tiago tem refluxo grau III). No final, retiram a sonda e depois de fazer o primeiro xixi dizem-nos “muito glup!glup! na boca do Tigas e mudar a fralda com regularidade por causa do contraste que é eliminado no xixi”.

Temos de dizer que chorou mas por medo do desconhecido, não de dor. Mas a nossa serenidade é meio caminho andado para a serenidade deles. E assim foi.

O grau de refluxo vesico-ureteral não mereceu considerações cirúrgicas mas só por existir (primeira causa descoberta para a Insuficiência Renal do nosso pequeno) e  para reduzir o risco da madame infecção urinária se instalar e agravar a IRC, o Tiago fez o antibiótico Bactrim® xarope durante 1 ano. Como não houve visita de infecções durante esse intervalo, aos 2 anos (Fevereiro de 2018) disse-lhe “bye bye!”.

Mas o que é realmente tranquilizador é chegarmos a casa e termos a nossa sala à espera.

“There’s no place like home”

Salas de espera (II): Cintigrafia Renal.

5 thoughts on “Salas de espera (I)”

  1. Vocês têm mesmo a facilidade de nos fazer rir a gargalhada com um assunto tão delicado.
    P.s : o tigas está um homem 💖

  2. Apesar de ser um assunto delicado.. muito bom texto… 😊 orgulho em vocês… Tigas estamos contigo… e vamos mandar essa senhorita à vida dela… 😍❤❤❤❤❤

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