Foi um ano de dualidades. Dois nascimentos: em Fevereiro, o nascimento do nosso Tigas e em Dezembro o do diagnóstico.

A gravidez correu a rolar (tivessem visto o barrigão!), mesmo com a Clara ainda pequenita. Engravidamos (sim, plural…ai barriga do papá!) tinha a primeiríssima 7 meses. Foi uma gravidez planeada e desejada. Tão desejada que esgotei o stock de desejos logo aqui porque não houve pedidos esquisitos durante os nove meses. A diferença foi na diabetes gestacional, que se controlou com administração de insulina ao deitar e que se resolveu após o parto.

O problema da alimentação colocou-se desde muito cedo: o nosso filho não mamava o suficiente e perdia peso. E andámos na corrida “mama daqui, leite artificial dacolá” durante 5 meses. Ora perdia peso, ora não ganhava, ora surpreendia com umas gramitas a mais. Pelo quinto mês e, a pedido da pediatra, realizou uma colheita de urina para ver se a infecção urinária andava a querer acomodar-se, mas nem vê-la.

o rapaz tem o seu ritmo, pronto!– pensamos nós com o coração a esganar a razão.

Nesta altura, a  questão do peso ainda se mantinha e por isso a mama fez as malas de vez e demos um aperto de mão ao leite artificial e à diversificação alimentar. E falar na diversificação alimentar do Tigas é falar na relação de amizade com a água. Sede, muita sede. Muito glup!glup!glup! e pouca vontade de comer. Muitos aviões tentaram aterrar naquela boca pequenina com levantar voo logo de seguida! E as fraldas! Essas começaram a transbordar de xixi que nem cataratas (principalmente à noite).

A avó materna alertou: porque será que o pequeno tem tanta sede? A Clara não era assim (a nossa filha gostava pouco do glup!)!

Ai as avós, detentoras da sabedoria das suas avós!

Até aos dez meses, a balança foi pondo as mãos na cabeça em cada pesagem (e os pais apostavam no ritmo próprio de crescimento!) e suspirava por cada grama conquistada. Escrevíamos e apagávamos ementas ao ritmo do percentil do pequeno.

Em Dezembro, o Tigas desenvolveu um quadro de febre baixa (que passou rapidamente), vómitos, recusa alimentar mais acentuada e uma irritação como nunca tínhamos visto. Foi observado pelo médico de familia (os cuidados de saúde primários sempre em primeiro lugar) que o encaminhou para a urgência do Hospital de Braga. Depois de colheita de sangue e de urina e depois de várias considerações médicas, chegou-nos às mãos uma matemática muito estranha .

Eu sou Enfermeira e aquela linguagem não me era estranha.

O que me soava estranho era aqueles valores serem do nosso filho.

Ouvimos as palavras “insuficência renal”, “precisa de ficar internado”, “parece ser uma insuficiência renal crónica”…e os nossos ouvidos foram ficando cada vez mais surdos.  Ali, vivemos a dualidade do “não pode ser” e do “o que temos de fazer”. Ficou internado durante 6 dias. Foi transferido para o Centro Materno Infantil do Norte – CMIN – no Porto, ao cuidado da especialidade de Nefrologia e no dia 24 de Dezembro, véspera de Natal teve alta com um presente maior que ele.

Insuficiência Renal Crónica, com amor.

 

Raquel, a mamã.

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