Às vezes o que passa por serenidade vai-se a ver não passa de inconsciência. Nas restantes, não. No pior dos casos, pode ser só alienação.

Falo de sentimentos, a viagem interior que nem sempre exprimimos, nem sempre exteriorizamos. Talvez por nem sempre sabermos verbalizar.

Depois de passar, reparo que passo às vezes por certas situações como um turista passa num lugar novo. Sem entender muito bem o que está a presenciar.

No pior dos casos, o da alienação / irresponsabilidade, lembra-me o Pessoa: “O mundo exterior existe como um actor num palco: está lá, mas é outra coisa.

Sou uma pessoa serena, mas propensa à agitação. Como quando as coisas à nossa volta não têm o ritmo adequado e nós não temos capacidade de absorção. Processamento, dirão os mais robotizados.

A relativização é possível com tal serenidade. Pessoalmente acho-a bem mais exequível quando o mar está calmo (pois claro, assim também eu!), mas há e deve haver limites para o relativismo. Ou tudo resvala para o caos. (No pior dos casos, para a barbárie, mas isso é outra história).

Quando o diagnóstico veio – e isto não me soa, de longe (lá estou eu a relativizar), ao pior dos casos. Porque não é, de facto – não soube muito bem digerir o que isso implicaria / implicará.

Ficam os pensamentos atravessados, a marinar em surdina e sem chegar a nenhuma conclusão.

É quando os sinais se manifestam mais intensamente que se rarefaz a calma escondendo-se num canto oculto da alma. Quando a situação piora, os níveis se descontrolam, o peso (é só um dos sinais) se sente mais pesado porque mais leve, outras coisas se arrastam, embrulhando tudo numa confusão que é não só interior mas que tem consequências na ordem e no funcionamento cá de casa. Fica tudo avariado, para obras, sine die. Sendo nós a própria construção.

E

quando a capacidade de recuperação do Tiago depois de um empurrão é como as palmeiras a explodir no céu azul,

quando a energia e o riso assim retomados tornam pálida a palidez da normalidade,

quando somos reconfortados por um regresso a casa num abraço fofo, num espaço que faltava preencher,

mesmo que as dificuldades se adensem e tragam novidades mais ou menos inesperadas,

eu sei que tudo vai correr bem.

Como se a serenidade e a relativização fossem a média de uma soma de muitos altos e muitos baixos, eu sei que tudo vai correr bem.

 

Eduardo, o papá.

3 thoughts on “Pai”

  1. “a vida conserva-se oculta e misteriosa, a rir-se de todos os sábios e filósofos (…) Amando, abdicamos do nosso absoluto.”
    O dito cujo 😛 … de “O Homem Universal”

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