Estender o braço de tamanho S num lugar do tamanho dum gigante, com picas do tamanho do mundo, dói. Fazê-lo acreditar que os super-homens também são abelhas nos tempos livres e que o mel do Nestum que lhe pusemos no braço antes de sair de casa

(para não fazer “buá!buá! ao cubo” na hora do ferrão espreitar)

é feito debaixo das capas super-poderes depois do expediente, não resulta. Tirar sangue mete muito medo. Ao pequeno, dizemos “já vai passar…já passou” mas na cabecinha dos papás anda o “já podia ter passado!eu já fui ver os ursos polares ao pólo norte em pensamento e a agulha ainda aí está!compre um relógio novo a uma lebre porque o seu foi programado por um caracol!”. E a conversa surda repete-se todos os meses ou sempre que os senhores da bata branca necessitarem de acertar a matemática renal.

√ de Ureia+Creatinina+hemoglobina – Taxa de filtração glomerular  = ∑ urina a transbordar mas com obras nos feijões sem fim para acabar.

No dia anterior fazemos o jogo do “adivinha aonde vamos amanhã?” e largamos todas os medos de véspera para soltar todas as gargalhada no dia seguinte.

“xô medo, xô!”

“xô choro: quem arrisca, não chuvisca!”

E na sala à espera, escorregamos no “ai!ai!meu pai”e o pequeno a querer dizer “fui!” a fugir pela avenida “da pouca liberdade” do hospital. Agarrado à certeza infantil de que se fechar os olhos ninguém o vê, corre. Este nosso pequeno, um sonho doido, varrido pela certeza gigante de que tudo passa. E os papás vão tirando notas porque não há sala de aula maior que o coração duma criança.

There´s no place like…os que não incluírem picas, fitas e matemáticas esquisitas.

 

One thought on “Salas de espera (III)”

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