A Insuficiência Renal Crónica (IRC) é danada para comer. Gosta de baixos percentis, réguas curtinhas, balanças que ainda não aprenderam todos os números e de bocas fechadas à hora da refeição. Os livros dos senhores de bata branca dão o sinal de aviso: crianças com IRC têm alteração do paladar e pouco apetite (nunca a “pescadinha de rabo na boca” teve tanta razão!) que consequentemente afecta o seu desenvolvimento. E percebemos que o paladar menos sentido é o doce (desejo da maioria dos papás!).

E cá em casa, estamos à espera que o Tigas cresça para podermos ir apanhar laranjas sem escadote.

O peso sempre andou de boca no trombone (aqui) e percebemos que os feijões mágicos podem afectar o crescimento (ritmo mais lento) dos que têm ainda muito que crescer! Os rins são por si uma balança e mestres no equilíbrio de nutrientes, minerais e hormonas. Quando a senhorita IRC decide que quer fazer parte da família, não há equilíbrio que valha e o crescimento desacelera de acordo com as regras da balança renal. Já pensamos em fazer uma gravação e passá-la em todas as refeições para nos poupar na hora de fazer voar a colher até aquela boquinha.

“Senhora dona boca, daqui fala papás.

 Em cinco segundos, abrir portão. Em dois segundos, engolir.

Abrir outra vez. Não desista, insista, insis…, ins…”.

Fechou.

Comer não é o jogo favorito do nosso pequeno mas é o seu principal faz-de-conta! Estão os papás a jogar à batalha-renal na hora da refeição (mais um navio e uma colher ao fundo!) e o pequeno a fazer-de-conta que quer comer. E para jogarmos ao ataque com o senhor apetite, trocamos-lhe as cartas de navegação, apontamos o farol para terra firme e atacamos em porto conhecido. E não há melhor arma que a paciência. Muita. Navios cheios dela.

E porque não só de paciência se enche a barriguinha, temos uma ajuda importante duma nutricionista que nos ajuda a desenhar a estratégia para levar “a colher ao fundo!” e encher os navios com contentores (bem equilibrados) de minerais como o fósforo, o cálcio e o potássio.

A energia proveniente da comida é essencial para se desenvolver e o aporte energético definido para o Tigas é baseado na idade, no peso, na altura e acertado mediante o resultado das análises que faz a cada mês e meio. A insuficiência renal do pequeno está no estadio 4  e ficamos surpreendidos com a não restrição alimentar. Afinal, o pequeno tem que comer.

E beber porque,

como faz xixi que nem cataratas do Niagara (nos livros, poliúria!) tem risco aumentado de desidratação e por isso, tem de compensar a saída de xixi (ai o peso daquelas fraldas!) com uma boa entrada de líquidos (e isto não é verdade para todas as crianças com IRC porque há as que necessitam de restrições por hipertensão e/ou por retenção de líquidos). Beber passa a ser outra batalha-renal quando está doente – já teve de fazer três visitas guiadas à sala de espera da urgência hospitalar por recusar beber e por vomitar o pouco que entrava.

As proteínas, vistas como possíveis vilãs no jogo do equilíbrio renal (e sim, podem ser menos desejadas conforme a evolução de cada criança), são afinal amigas do desenvolvimento do pequeno. Fazê-las fugir é fazer crescer o “ai! dos pais” na hora de jogar ao “percentil do Tigas – a saga!”, pôr os números da balança de pernas prò ar, aumentar o risco de desnutrição e afectar-lhe o crescimento (outra vez a pescadinha de rabo na boca!). E equilibrá-las com os amigos hidratos de carbono (açúcares) e fontes de boa gordura é importante.

“E como a senhora Insuficiência Renal veio para ficar, apenas podemos fazer com que não aborreça muito. E por isso, enviamos para dentro rebuçados que só há em mercearias cheias de poderes especiais. Se vai ficar, que fique feliz.”

Se o apetite do Tigas gosta de dar luta deviam vê-lo a abrir a boca para estes docinhos.

“Filho, vamos tomar a medicação?” e não se ouve um único não.

Já fizemos a prova de doces, para lhes conhecer o sabor e argumentar com o pequeno na hora de comer. Por exemplo, o bicarbonato de sódio é salgado, o ferro sabe a caramelo, a vitamina D é ligeiramente salgada e o fortini pó é ligeiramente adocicado. No próximo mês, a loja de doces vai crescer para começar a saborear o captopril xarope (um nome pomposo para um agente de segurança pouco secreto que protege os rins de entrarem em alta tensão!).

À mesa, o peso pesa. Jogamos, brincamos, jogamos outra vez. Como diz a Clarinha “brincar é bom…e rir!”. E tudo fica bem outra vez.

11,090kg. Plim.

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