Era uma vez

um pai e uma mãe doidinhos por estradas nacionais. Não havia via verde ou kms a 120 que os atraíssem. Devagar, devagarinho era o lema. Gostavam de conduzir com as duas mãos no volante, cinto bem apertado, espelhos alinhados e nunca, nunca andavam de depósito meio cheio. Meio para cima, só. Respeitavam os stops, os sinais vermelhos, as zebras da savana na cidade e braço de fora do vidro era coisa radical.

Adoravam as marchas de domingo, nunca respondiam a insultos das marchas dos outros seis dias e a calma era a sexta velocidade. Houve uma vez, num passeio que se avistava habitual, que o filho mais novo quis desistir de andar devagar, devagarinho. Andar na autoestrada é bem mais cool, de vidro aberto e com as bochechas da cara a tremelicar com o vento. Deixou-se de apetites e ultimou que deixava de comer. Os pais, preocupados, levaram o menino ao balcão de informações das crianças com vontades estranhas nas entranhas e quiseram saber quem raio persuadiu o menino-devagarinho a andar mais depressa. Foi-lhes dito que o pequeno, às escondidas, andava a aprumar a capacidade de leitura nos livros de gastro-fórmula-1 e que a gastrostomia era a estrela actual das corridas. E dessas, ele percebia bem. Mas os pais não. Só conheciam o Sena e o Schumacher e esses não tiveram boa sorte nas velocidades.

Explicaram aos pais que para uma boca-slow, recomendavam essa super-estrela de corrida porque tinha ligação directa com o acontecimento e não teriam preocupações com o travão da mão. “Mas que leituras estranhas, as do nosso filho. Tão habituado a abrir a boca devagar e agora ter de acelerar…”

Nota dos papás sérios: a gastrostomia  é uma sonda colocada directamente no estômago pela qual se administra alimentação e medicação. A sonda não invalida (excepto por expressa indicação médica) a alimentação também pela boca. Pode ser temporária e, no nosso caso, foi posta em cima da mesa (carinhosamente e sem qualquer autoridade!) no Verão de 2017 pela dificuldade do Tigas se desenvolver por alteração do apetite a longo prazo. Foi proposta, mas não aconteceu.

Os pais do menino-devagar-que-queria-andar-mais-depressa queriam voltar a passear com o filho à velocidade de domingo e, para isso, tinham de acelerar. Trocaram o carro e puseram os cavalos a relinchar. Fizeram a curva e meteram-se na autoestrada, correram lado a lado com o piloto automático do pouco-apetite e o contador de km tremelicava a querer dar mais. Começaram a conduzir com duas rodas no ar sempre que a estrada pedisse e uma mão no volante já não fazia comichão. Trataram por tu a luz acesa do depósito de gasolina e fazer sombras chinesas com os dedos sempre que alguém lhes apitava tornou-se o lema de todos os dias.

“Saiam da frente, que não queremos ver a gastrostomia a passar”. Ultra(mega)passar o apetite era o objectivo e se queria autroestradas só por cima do nosso motor carregadinho de cavalos a relinchar. Os pais do menino espalharam pingos de suor nos vidros dos outros carros, queimaram o acelerador e fizeram peões em terreiros baldios mas a corrida ficou ganha.

pais 1

gastrostomia 0

Outra nota dos papás bem sérios: depois da proposta da gastrostomia, os papás tiveram de repensar a alimentação do Tigas. O pequenino ficava com as avós ou com a tia materna sempre que os papás tinham de trabalhar. Este amor familiar e absoluto alimentava-o mas não só de amor se enche a barriguinha. Conhecíamos-lhe a necessidade de estabilidade e os papás sabem sempre quando alguma coisa tem de mudar. Como nenhum de nós queria o pequeno com remendos ou com a anatomia virada do avesso, em Setembro de 2017 a mamã deixou o emprego com apoio de um subsidio para assistência a filho com deficiência ou doença crónica, que vos falaremos num próximo artigo. Até quando for preciso.

A corrida ficou ganha e os pais voltaram a viver devagar. Guardaram o carro novo na garagem, limparam o pó ao antigo e meteram-se por caminhos secundários para chegar à estrada principal. Dizem-se prontos para fazer fumo na estrada caso a gastrostomia queira meter todas as mudanças ao mesmo tempo outra vez.

Sugestão de visita para ler sobre as emoções em velocidade furiosa quando nos falam sobre gastrostomia. Não é um blog sobre Insuficiência Renal mas fala de amor e isso chega. 

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