Iniciamos aqui uma nova rubrica que nos leva para uma das nossas paixões, os livros.

A arte é, dizia o grande Tarkovsky, uma das três vias para o conhecimento (sendo as outras a razão e a experiência) e com ela podemos viver realidades inimagináveis. Engrandecemo-nos e crescemos por dentro. Um livro é um comprimido que não se toma a mando da indústria químico-farmacêutica. Deixemo-lo entrar, pois.

Era uma vez uma menina com muita curiosidade pelas coisas. A cada objecto, ser, fenómeno, movimento, som ou cheiro, a menina colocava as suas interrogações. E com o papá lá estava, lado a lado, a admirar, sentir e contemplar o mundo.

Um dia, o papá deixou de estar a seu lado e, para salvar o que lhe restava, a menina guardou o coração num lugar seguro. Sempre a segurar na garrafa, deixou de prestar atenção às coisas à sua volta. Já não via, nem ouvia nem vivia. Estava a perder o resto do mundo.

Mas um dia…

Temos este livro antes de termos tido os nossos livros abertos Clara e Tiago.

Pessoalmente, sempre o tive como um grande axioma filosófico sobre a vida. A de que a vida só o é quando há movimento, interacção. Entre o dentro e o fora. Que, separados e estanques, cada um não se desenvolve, ou então – derivado de algum processo traumático que nos fecha – esmorece, estiola e definha.

Sem entrarmos em mais divagações, lembremos que é através da comunicação – uma das pontes entre o dentro de um e o dentro do outro – que aprendemos e crescemos. O resultado, contínuo, e que se apura nesse caminho, é o enraizamento, o sentido dos valores e a própria sensibilidade.

A incomunicação só deixa entrar uma coisa, para se instalar – lá está ela – sem dor: a apatia.

Que à força de não querer dar o que nos resta, acabaremos por perdê-lo. No fim, por nos perdermos a nós próprios.

Mas estas elucubrações estão, muito mais eficaz e simplesmente, expostas neste conto de Oliver Jeffers. Porque há livros infantis que também são para adultos, “O Coração e a Garrafa” é a nossa primeira estória na nossa História.

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