Numa consulta com os senhores de bata branca, quem nunca ficou surdo ponha os dedos todos no ar! Quem nunca ficou na frase anterior do que nos estão a dizer e deixou de ouvir todas as restantes, faça o pino! Quem nunca chegou a casa com uma dúvida por mais anã que seja, que faça uma acrobacia circense.

Estar numa consulta com um filho, é danado. Pensamos ser os detentores de toda a verdade e vai-se a ver é o senhor de bata branca que nos detona. O Tigas tem ponto de encontro de nefrologia a cada mês e meio e por mais vezes que o façamos, há sempre algum momento na consulta em que o cérebro fica surdo e o coração comanda o silêncio. Na última consulta, que já dista de 1 mês, falámos claramente sobre o caminho que a doença do Tigas está a fazer. Quando ouvimos falar de diálise peritoneal (veja aqui) e transplante renal (aqui), ficámos mouquinhos de todo e com o medo em conchinha.

Não queremos ouvir aquela música tensa. Somos românticos, queremos amor mas não se pode viver sempre de lamechice e por isso… rock´n roll com a doença!

Descobrimos que escrever as dúvidas conforme vão dando à costa resulta. Um mês antes, a nossa memória parece que nunca dorme mas chegada a altura, é como se estivesse anestesiada. Por isso, o frigorífico é um verdadeiro muro de lembrações e enquanto se vai buscar a alface e o tomate, deita-se o olho à cábula. No dia e antes de entrarmos para o ponto de encontro, deitamos os olhinhos no papel e temos o assunto assim que resolvido. E escrever o que se ouve na consulta não faz de nós exagerados. Faz de nós super exagerados… mas lá que ajuda, ajuda. E mais! Pedir para que nos escreva quando não estamos certos do que ouvimos também faz parte da estratégia.

Depois temos o Tigas-que-mais-parece-lambuzado-de-manteiga a escorregar-nos do colo e a querer voltar pra ele de cada vez que os senhores de bata branca lhe apertam o braço tamanho S com uma manga para avaliar a tensão, de cada vez que é despido para ir à sô dona balança e sempre que é esticadinho duma ponta à outra para o medir. Este choro dá-nos uma tensão da alta e a solução é irmos os dois, para que um se foque na informação importante e o outro na manteiga.

Termos língua de perguntador ajuda a voltar para casa sem grandes dúvidas. É bom que saibamos o que está pra vir para podermos decidir o que devemos deixar ir e acolher acontecimentos novos. Mas o medo da resposta dá-nos cá um baile! E se não lhe acertarmos o passo, há bronca na discoteca. Danadas estas emoções! Mas o importante é termos a informação toda e mapear as fases da doença com ajuda de quem sabe. Sabermos a previsão do tempo para a doença ajuda-nos a não sairmos de casa de galochas em dias de calor. Se tivermos o contacto telefónico do senhor de bata branca para onde possamos ligar sempre que o pequeno espirra duas vezes (e o habitual é espirrar uma!) ou quando vomita mercearias inteiras, o alento é outro. Haver colinho para os papás é um passo gigante para que tudo corra bem.

E se depois de tudo isto, o papel no qual apontámos tudo durante a consulta nos voar pela janela do carro em andamento, só nos resta parar o carro, procurá-lo e rezar para que não chova.

2 thoughts on “Como foi que disse?!”

  1. Haverá meio na família de fazer um dom de órgãos e qual é a idade máxima se o dito for são?

    Continuem assim ……leio o que escreves e fico com coragem e inspirada !!!

    1. Olá tia. Obrigada pelo comentário. Ainda não aprofundamos conhecimentos sobre tudo a que diz respeito ao transplante. Cada fase devagar. 🙂 Mas quando chegar o momento, dir-lhe-ei tudo. Um beijinho grande e obrigada por nos seguir. 🙂

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