Alimentar é um acto de amor. É social, vem da raíz, é (i)nato. E não conseguirmos que o nosso filho abra a boca sem hora marcada faz-nos sentir um relógio sem ponteiros. O cuco dá horas mas a barriga do Tigas nem por isso. Às vezes, o passarito até canta bem mas tem muitos dias de garganta arranhada. O pequeno não faz de propósito nem estudou as estratégias in útero para boicotar a horas das refeições. Veio com ele, de boleia e com a senhorita insuficiência renal crónica na algibeira e os papás ficam com dor de cuca.

A alteração do paladar é o mestre das bocas fechadas, que influencia negativamente o crescimento da criança com doença renal crónica. Os rins têm muitas funções e filtrar a urina é apenas uma delas. São multi-tarefa e se lhes conhecermos o curriculum vitae, dá-nos mais espaço para recrutar umas quantas emoções mais fortes. E quando estamos sem andaimes para as segurar fazemos surf na literatura. Preparados com a prancha?

Já tínhamos partilhado que os feijões mágicos são uma balança perfeita, mas não custa repetir, porque as emoções são danadinhas para pregar partidas de arrepiar os pelinhos do dedão grande do pé e assegurar que sabemos alguma coisa ajuda a respirar fundo depois do susto… ufa!

Se os feijões trabalhassem no comércio, não haveria papel melhor para eles que serem uma balança. Equilibram nutrientes e minerais, como o cálcio e o fósforo, cimento mais que bom para o crescimento ósseo saudável: usam uma hormona de nome calcitriol (transformada a partir da vitamina D), que ajuda os ossos a absorver a quantidade adequada de cálcio vindo no comboio do sangue e eliminam a quantidade de fósforo em excesso, equilibrando a dupla fósforo-cálcio no sangue.

Ajudam o corpo a usar da melhor maneira a hormona de crescimento – que é formada naturalmente pela glândula da hipófise (nome pomposo para uma região localizada a sul, no cérebro) – que actua como mensageira para o crescimento do corpo, como um todo. Gosta de enviar sms ao fígado para lhe pedir que produza outra hormona supimpa – a somatomedina (palavrão para o telegrama que ajuda a dizer rapidamente aos músculos, órgãos e ossos para que cresçam).

No nosso corpo, nunca há greve na distribuição do correio.

Ajudam a balancear a eritropoietina, a menina-carteira que envia cartas à medula óssea (nome complicado para a fábrica de células-mãe) para aumentar os glóbulos vermelhos (pipocas vermelhas saltitantes que fazem de autocarro para o oxigénio) que nos dão aquele aspecto de “bochechas-cor-de-beringela” e não o das “bochechas-dá-cá-a-ardósia-que-pareço-giz” e são peritos a brincar ao jogo ácido-base, que dita a acidez do sangue.

Ainda estão de pé na prancha?

É mais ou menos fácil entender que quando tudo isto anda a meio gás, há desaceleramento do crescimento. Dá daqui, tira dali, equilibra, equilibra… São uns verdadeiros trapezistas e a senhorita insuficiência renal crónica gosta de lhes esticar a corda. E quando estica, os ossos passam a ter fome de cálcio por falha na transformação de vitamina D em calcitriol, o fósforo aumenta mais que o desejado no sangue e faz das suas com o cálcio, dando-lhe ordem de despejo dos ossos. Deixa de existir equilíbrio nos níveis de sódio, potássio e do jogo ácido-base do sangue, provocando a acidose (refere-se à acumulação de acidez no sangue que devia ter ido pelo cano abaixo na presença duma boa filtração renal). Quando este equilíbrio não funciona, o corpo desacelera o crescimento para se focar no REequilíbrio. E por tudo isto, o apetite diminui, não há vontade de comer e às vezes não há mesmo energia para comer com desajuste nutricional associado. Reduz a eritropoietina, aumentando o risco de anemia que é menina para diminuir e até mesmo parar o crescimento.

Há uma maior quantidade de urina (poliúria, é o palavrão da literatura!) que desregula o equilíbrio de líquidos no corpo, provocando a eliminação de minerais pela urina. Liga-se o alarme e o corpo compensa o que não deveria acontecer com uma redução no crescimento. E não há produção e aplicação eficaz da hormona de crescimento.

Caramba, que esperteza natural a do nosso organismo! Compensar e equilibrar o que o corpo não consegue fazer por falência da função dos feijões mágicos é cá um prato! E é no prato que há uma estratégia importante para combater o tal desaceleramento do crescimento. E é por isso que dói a cuca quando o Tigas não come. E também é por isso que cozinhamos os feijões à nossa moda, em cima duma prancha de surf, em plena tempestade.

Ondas da Nazaré, sois umas meninas.

9 thoughts on “Feijões à nossa moda”

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