Cansados. Temos o pão e o açúcar. É favor de nos trazer as uvas tintas.

Desde o dia 26 de Maio que a doença é a rainha desta casa. Doença aguda, entenda-se porque a senhorita insuficiência renal crónica encanta e já cá canta desde 2016. A Clarinha tirou um curso intensivo de tosse e fez questão de nos mostrar com quantas cuspidelas se faz uma pneumonia.

Vai que é um vírus, vem que são constipações banais e habituais das crianças e no vai e volta, a pneumo(ma)nia apanhou boleia. E vai daí, no dia 30,  fizemos a nossa primeira viagem à urgência do Hospital de Braga para lhe tirar o perfil pulmonar, conhecer-lhe a ranhoca, a febre que lhe aquecia todas as entranhas e a mania de ter pneumonias. É a segunda desde Outubro.

Antibiótico a condizer, muito glup!glup!glup!, sair à rua é coisa para depois e muito humor, com amor.

A febre foi dar uma volta dois dias depois do senhor antibiótico, os cuspes que adoram andar aos montes estão já com um pezinho na viagem de regresso para a bacterolândia, o apetite que tinha ido morar com o do mano (pouco, muito pouco, pouquíssimo… ok, quase nenhum…) está de regresso e a vontade de brincar como dantes dá-nos uma nova vida. Disse “estou cansada” infinitas vezes mas o que a Clara queria mesmo dizer era “estou cansada…de estar doente, estou cansada de estar em casa, estou cansada de tossir e de não dormir!”. E os papás só pensavam naquelas crianças do há muito tempo atrás que comiam sopas de cavalo cansado quando estavam doentes.

Uns quantos dias depois, já nos quer dar música outra vez.

Mas uma festa não é festa sem fogo de artifício e a mamã decidiu atirar umas canas prò ar no inicio da pneumonia da pequenita e abrilhantou os ceús com uma febre bem quentinha durante dois dias. A tosse ganhou asas e a mamã aterrou a abanar o esqueleto de frio. A Clarinha a precisar dos papás, o mano na boa, a mamã a precisar do papá, o papá a precisar de tempo para as sopas fortificantes da pequenita e para a falta de apetite do mano que está na boa, o mano a precisar da atenção de todos e o papá decide fazer mais uma prova de amor e recruta uma febrezita para ele.

(Ainda estão aí?)

A mamã melhora, o papá adoece e depois melhora, a pequenita ainda com a pneumoMAnia, o pequenito na boa mas a sentir-se excluído. Dias depois chegou a encomenda para o Tigas. Os papás já recompostos (ainda que a tosse não largue a mamã!), a mana já quase na boa e o pequenito decide adoptar a Lassie e pô-la a ladrar horas a fio até ficar sem pio. Laringite, com amor.

Febre, tosse, quente e ele com frio, muita febre, vómitos na febre, tosse que ora parecia uma foca ora um canito. Pé no acelerador e outra vez urgência (já devíamos ter desconto em cartão como clientes assíduos!): depois de medicação saída dum fumeiro, de termos chamado o passarinho para lhe conhecer os pulmões e depois de ter entrado água e um bifinho (pronto, foram duas tostas e meio iogurte!) sem retorno, voltamos para casa, mais bem disposto mas ainda sem querer brincar.

Uma criança doente que não brinca é como sair de casa atrasado para o trabalho, apanhar uma fila de trânsito do tamanho da route 66, o motor do carro dar o ar de sua graça logo que a fila arranca, o reboque que nos ía ajudar ter um acidente e termos de apanhar um autocarro que por sinal vai para o sentido contrário do teu local de trabalho.

Mau, não é? Exagerado? Nã…

A febre passou, a Lassie ainda andava enroscada no pequeno mas havia alturas em que dava a vez a pega-monstros difíceis de sair, o apetite passou a zero, a vontade de beber era seca que nem um deserto e a mosca do sono fez-lhe uma visita. Sonolento, muito sonolento. O nosso filho parecia ter as persianas dos olhos estragadas e nós só pensávamos em ligar ao senhor faz-tudo que foi lá a casa há uns dias arranjar as da janela da sala.

Um dia e meio depois, vamos nessa... e outra vez urgência. A infecção respiratória instalou-se confortavelmente e a função renal do pequenito não apreciou a greve de líquidos. Estivemos na urgência para dar resposta às reivindicações da senhorita insuficiência renal crónica:

“quero três colheitas de sangue e uma de urina, 1 litro de sorinho na veia, preciso que vigiem a sonolência do meu hospedeiro e façam o favor de despertar a sede ao pequeno porque já tenho saudades de verter águas como gente grande!” Ó senhorita, por quem sois! Vai daí, as senhoras de bata branca dedicaram-lhe tempo e após pouco mais de 24h, abriram-se as persianas e as cataratas de Niagara mostraram quem manda nas fraldas.

Depois de uns fuminhos de nevoeiro, fotografias aos pulmões e à barriguita, hidratação e com a vontade de beber renascida, a ureia e a creatinina (valores importantes que nos dão a conhecer a função do rim) puderam descansar… e nós também. A tosse melhorou, o apetite quer voltar ao normal e a vontade de brincar também.

Estamos cansados, não dá para negar mas a solução é esticar o sorriso. Vivemos melhor sem cuspidelas voadoras, sem os tremeliques da febre e sem os brinquedos aprumadinhos nas prateleiras. Gostamos muito de animais mas ainda não temos espaço suficiente cá em casa para cães, focas, vírus, bactérias e cavalos. No máximo, o gatinho que ainda ficou na rouquidão da voz do Tigas!

Queremos sopas da mãe, queremos brinquedos espalhados pelo chão (ou o aspirador, que é o carrinho preferido do Tigas!), queremos acção, queremos asneirolas, queremos migalhas de bolachas espalhadas pelo sofá, não queremos vómitos mal cheirosos nem medicação que, à tamanha quantidade, parece ter sido comprada em promoção.

Ainda assim, estamos à espera das uvas tintas. Enquanto isso, barramos o pão com açúcar e adoçamos o coração.

Obrigada por nos lerem. Com amor (sem beijinhos contagiosos… mas contagiantes!), Edu, Raquel, Clarinha e Tigas.

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