Hoje foi dia de mais uma sala de espera para um encontro com a senhora dona ecografia renal, que é perita em imagens especiais – que aos pais mais parecem espaciais  – da cartografia dos feijões e saber a quantas coordenadas andam. O exame foi um pretexto para começarmos este texto onde nada é o que parece.

A mamã entra na recepção do serviço de imagiologia com o fofinho ao colo (que já lhe encostava a testa ao ombro desde que ao passar a esquina lhe apareceu o edifício mais turistado desde os 10 meses!) e a senhora dona secretária saúda gentilmente a progenitora e a sua cria ao colo com um “que linda menina!”. A mamã olhou para trás para vislumbrar a linda menina de que falava e vai daí, era com a beleza feminina do Tigas que ela estava encantada!

-Sim, sim, se fosse uma menina seria linda mas a cada muda de fralda confirmo que é um menino! Desculpe desiludi-la! –  e sorrio, sem suspirar.
-Ah! Deve ter sido a camisola cor de rosa do Tiago que me confundiu! –
suspiro!

Ora bolas (sim, é de bolas que falamos!), aqui já entramos na questão cabeluda, pouco redonda e muito estereotipada do conceito de género, onde há cores para cada género, carrinhos de polícia para eles e vassouras e aventais para elas, livros de autocolantes e de actividades diferenciados e secretárias de unidades hospitalares que compram todas estas regras sociais para os seus filhos e netos! Bom, o suspiro teria ficado por aqui se a senhorita não tivesse regressado alguns minutos depois reforçando que ele parecia mesmo uma ela.

-É uma ela, sim! Eu é que estava a reinar consigo. Isto é para os apanhados! Antes de sair de casa, fui à loja do cidadão da porta do cavalo, mudei-lhe o nome, tirei-lhe uma fotografia com a roupa do irmão que também anda disfarçado de menina e deixei-lhe uma palete de shots de hormonas para lhe aumentar o pedúnculo!

Querem saber? No final do dia, a mamã leva o fofinho à padaria para comprar pão e a teenager que os atende ao balcão abre o sorriso e cumprimenta o Tigas com um “olá fofinha!“. Cai uma pastelaria de suspiros açucarados pela mamã abaixo quando lhe diz que foi o rosa da camisola que a confundiu! Oh querido padroeiro das alminhas cegas pelos estereótipos e preconceitos, rogai por elas e dizei-lhes que os padrões sociais também têm um fecho de correr que se pode abrir e sair da rigidez a qualquer momento.

Achamos nós, que não sabemos nadinha.

Bom, retomando a sala de espera…

O fofinho é chamado e vem uma assistente operacional vestida de amarelo e suspeitando do beicinho anão que estava prestes a rebentar em gigante, entre a sala de espera e a sala de exame tenta (tenta!) tranquilizá-lo e diz-lhe, em tom de uma ave colorida muito conhecida pela sua habilidade vocal, todas as palavras que existem na Wikipédia quando se procura “como acalmar uma criança de 2 anos e meio que tem um medo que se pela dos hospitais…” e, acrescentam os papás,”…e que se pela de medo de profissionais de saúde que para o acalmar aumentam o tom de voz, que usam brinquedos cheios de sons agudos e que não lhe respeitam o medo que se transforma em choro incomodativo e até constrangedor”:

Tiaguinho, sabes o que tenho ali? Sabes? Sabes? Um brinquedo! Sim, um brinquedo! Um carrinho, gostas? Gostas? (Ouve-se tinóni, tinóni…vrummm…) Ou este animal, esta vaquinha? Que achas? (ouve-se um guincho depois de apertado, múúú!) – e a mamã dizia-lhe ao ouvido que estava tudo bem – tinóni – que o medo ia passar – vrúúúmmm – que a mamã não o deixaria sozinho – tinóni,vrum, múú…

Ora, nesta sinfonia nenhuma criança escolhe tranquilizar-se. Escolhe chorar, chorar muito. A hiperestimulação auditiva e visual faz-nos sentir que seja o método mais despenteado para desviar a atenção do nosso filho durante um exame. Acreditamos (e já comprovamos!) que falar-lhe de coisas queridas , de familiares que lhe são especiais, de brincadeiras que lhe dão muito prazer, ter no telemóvel (sempre que o exame o permitir) a música preferida dele, tudo isto é praticável. Quando não funcionam, deixamos chorar e mantemos o toque, o contacto pele a pele que é a coisa mais cheia de amor no mundo.

O que valeu para não piorar o chinfrim que acampou naquela sala foi o médico que, em pequeno, não comeu todas as massinhas de letras ao jantar e só aprendeu a dizer “já está!” no final do exame. À entrada, enquanto a querida assistente operacional punha em prática tudo o que aprendeu na sua formação e fazer palavras cruzadas na praia, o senhor da bata branca agitava a cabeça em modo de saudação porque dizer “boa tarde!” não lhe costumava cair na sopa. A mudez cai sempre bem para acabar com esses papás  modernos com a mania da liberdade, que gritam “25 de Abril forever!” a torto e a direito e que se metem a fazer perguntas sobre a saúde dos seus filhos. Puf! Perguntas…

Depois do chinfrim, vem a serenata.

A mamã e o fofinho deram as mãos, foram passear ao passo que o relaxamento pedia. Cruzaram ruas do Porto, andaram atrás do sol, distribuíram sorrisos para as gaivotas que faziam a delícia do Tigas, deixaram uma mensagem numa base de papel de tabuleiro dum sítio especial para fazer especial o dia de alguém e voltaram para casa a cantar músicas coloridas, onde meninas de vestidos azuis, meninos de camisolas cor de rosa, papagaios e massinhas de letras cabiam na mesma história. Não pode ser assim tão perigoso viver.

3 thoughts on “A história onde nada é o que parece”

  1. Muito bem…..na próxima baixa as calças ao Tiago, já ninguém o confunde….já começo a ter receio de andar de 🌹…espero que esteja tudo bem com o Tiago e convosco.. 😘

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