Era uma vez dois pequeninos braços que viviam numa montanha pouco maior que eles. Viviam sossegados, dançavam quando a música lhes era apetecível, dormiam quando a preguiça se enroscava neles e davam muitos abraços sem que a montanha pedisse. Era uma entrega natural um ao outro e à montanha, que os recebia. Tocavam-se sem pressas e brincavam com toda a intensidade até a montanha dar sinais de que a noite se aproximava. Gostavam de subir ate ao cume e ver a preguiça a chegar e depois escorregar por ela até onde os quisesse levar. Estendiam-se nas planícies do sono com a mesma intensidade com que acordavam. Eram geniais nas cócegas infantis e viviam livres.

Um dia, o âmago da montanha soluçou e os braços acalmaram-na com abraços. Tinha chegado alguma coisa que desassossegava o silêncio daquele mundo pequenino. Houve movimentos desconhecidos, caíam pingos de chuva de nuvens bem altas e os braços já não se sentiam. Nem eles nem a sua montanha-mãe. Deixaram de se sentir livres, deixaram de sentir o perfume das flores que se abriam aos seus passos. Desde aquele dia, os braços sentiam-se cheios de preguiça e só desejavam dormir nos abraços doutra montanha, de outra com odor a erva molhada, com cheiro a musgo verde apaixonado pelo castanho das árvores e onde pudessem voltar a brincar.

Os braços do Tigas procuram o afecto dos abraços de outros braços porque é neles que a turbulência chega a cada passo. É por eles que lhe conhecessem o âmago e é por isso que deixou de aceitar as mangas das camisolas subidas. O código já é conhecido: manga subida, agulha a caminho. Assim que sobem, mãos à dobra!
Não vão chegar os braços para tantos abraços, nosso amor!

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