Temos telhados de vidro, caramba. Não tínhamos dado por ela até uma bomba ter caído lá do cocuruto do universo e nos ter despedaçado o piso superior.

Os papás nunca estão preparados para nada

e

nada os prepara para tudo

porque o amor também gosta de puzzles de vidros estilhaçados e temos cá pra nós – e que ninguém nos oiça – que é nesse jogo de juntar peças que nos conhecemos como exímios jogadores. Não somos perfeitos, melhores ou únicos. Temos um sentimento assim, digamos, solto (assim como quando não usamos roupa interior, estão a ver?) pelos nossos filhos e pela doença dele. Abraçamo-la, chamamo-la para jogar connosco, pedimos-lhe opinião, levamo-la a passear e adormece ao nosso peito. E quando ela decide deitar tudo a perder, jogamos outra e muitas vezes porque o tabuleiro tem muitas casas onde os dados podem descansar. Damos-lhe o melhor sofá para descansar, aquele onde caem as moedas dos bolsos dos pais e a que os filhos chamam de mealheiro secreto e que é decorado religiosamente com uma almofada que guarda as babas de todos os sonos secretos a meio dos filmes. Não há maneira mais feliz de a receber do que abraçar o mais íntimo dela com o mais íntimo de nós (a baba na almofada é uma coisa bem cá de dentro, não acham?).

Os papás nunca estão preparados para nada

e

nada os prepara para tudo.

Não há emoções de copo meio cheio ou meio vazio. Aqui pra nós, a transbordar é que nos mata a sede, assim de beicinho encostado ao copo a tentar beber o mais possível para que nada dance pelas mãos abaixo. A doença do Tigas dá-nos sede (a ele também!) e virar umas quantas pipas de riso é que nos acalma o licor meio bêbedo do coração. Ou isso ou sentar a alma no sofá-mealheiro, chorar até babar e ficar à espera que o cocuruto do universo nos chute outra bomba e nos dê cabo do remendo no telhado de vidro.

Mas quando há uma emergência,
Ai!
quando há uma emergência…
bom, nem queiram saber a rebeldia.
Viramos o tabuleiro de pernas prò ar, escaqueiramos o sofá em pedaços, raptamos a almofada húmida de baba, viramos as pipas de riso numa golada, pomos vidro duplo no telhado, ficamos secos de intimidade

e

e

e

quebramos.

2 thoughts on “Quebrar em caso de emergência”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *