Basta imaginar,
um pássaro para o aprisionar,
e depois imaginar o ar para o libertar
e imaginar asas para ele voar
e imaginar uma canção para ele cantar.

Manuel António Pina

Se pensarmos que somos só um ninho, então o melhor é deixar ir para que o mundo se enriqueça com mais um passarinho.

Em dias de vento forte, empurramos o ninho para os galhos mais interiores e ficamos à espera que as raízes que nos seguram se sirvam da terra profunda para nos proteger.

Os nossos filhos vão de asas bem abertas e curiosas, de olhos semicerrados como se a prepararem para os esbugalhar a cada surpresa que o universo lhes apresente. Quando voltam, trazem mistérios resolvidos, tesouros por descobrir e quase sempre mais vontade de outra vez ir.

Somos sempre capazes de fazer o ninho nas copas das árvores mais altas para que eles se alimentem com a vida que o sol dá. Ainda que haja perigos de outras espécies, somos tomados pela força mais justa da natureza e fazemos frente ao medo de cair na sombra das folhas secas e rasteiras do chão, onde a luz só chega quando a árvore se despe e entristece.

Somos pássaros que fazem dançar a semente da vida e dentro nós canta a melodia mais apaziguadora da Mãe. Se num filho virmos as raízes mais capazes de nutrir o mundo, então teremos o ninho, devagarinho, vazio.

One thought on “O ninho”

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