Amor livre

                      Falar de liberdade é falar de amor. Este amor a quatro que nos enche de cravos vermelhos por cada vez que damos a mãos e dizemos uns aos outros: está tudo bem. Sabermos cantar em conjunto hinos de alegria por cada vitória individual faz de…

À mesa

A Insuficiência Renal Crónica (IRC) é danada para comer. Gosta de baixos percentis, réguas curtinhas, balanças que ainda não aprenderam todos os números e de bocas fechadas à hora da refeição. Os livros dos senhores de bata branca dão o sinal de aviso: crianças com IRC têm alteração do paladar e pouco apetite (nunca a…

A Mãe Maior

Andávamos a “ameaçar” há algum tempo e coincidiu com o Dia da Terra. Foi hoje que decidimos ir os quatro pelo monte do Picoto acima com um objectivo: plantar uma árvore. Mero pretexto, mas um bom pretexto, que o caminho vale sempre mais que a chegada. Furtamo-nos ao previsível e ao mesmismo: uma família a…

MiMana

A mimana é a Clara do Tiago. E ele o minimano dela. “Ohhh, mi mana”, e faz aquele beicinho repenicado para lhe dar um beijo em qualquer parte do corpo onde consiga chegar em bicos de pés. Hoje consegue dar no braço mas não tarda em chegar-lhe às bochechas sem ela ter de se baixar.…

Salas de espera (III)

Estender o braço de tamanho S num lugar do tamanho dum gigante, com picas do tamanho do mundo, dói. Fazê-lo acreditar que os super-homens também são abelhas nos tempos livres e que o mel do Nestum que lhe pusemos no braço antes de sair de casa (para não fazer “buá!buá! ao cubo” na hora do…

Pai

Às vezes o que passa por serenidade vai-se a ver não passa de inconsciência. Nas restantes, não. No pior dos casos, pode ser só alienação. Falo de sentimentos, a viagem interior que nem sempre exprimimos, nem sempre exteriorizamos. Talvez por nem sempre sabermos verbalizar. Depois de passar, reparo que passo às vezes por certas situações…

Salas de espera (II)

  Decidimos comprar um passe para a carreira das salas de espera. Aprendemos que fazer isto em modo “vamos ali e já voltamos” alivia o desassossego. Sentamo-nos no banco de trás, pomos os óculos de sol, abrimos a janela de cima, bronzeamos a testa e fazemos a viagem em jeito de festa. E à chegada,…

Mãe

Se antes do diagnóstico do Tigas deixava as minhas emoções andarem de táxi, agora sou eu que conduzo o autocarro e ponho ordem nas meninas. Raras são as vezes que andam bem aprumadinhas e a cheirar a perfume fresco das flores do campo. Mas a vida não cheira sempre bem. “tá quieta, tristeza!” “senta-te direitinha,…

Cheio e Vazio

A bexiga está vazia, a fralda… cheia. O cesto está cheio, a gaveta… vazia. Pouquinhas palavras – com dois antónimos dentro – para resumir uma parte importante, constante, do nosso dia-a-dia. – Água – diz o Tigas. (muitas vezes, ainda não contámos…) O copo cheio logo fica vazio. Se for o caso – e com…

2016

Foi um ano de dualidades. Dois nascimentos: em Fevereiro, o nascimento do nosso Tigas e em Dezembro o do diagnóstico. A gravidez correu a rolar (tivessem visto o barrigão!), mesmo com a Clara ainda pequenita. Engravidamos (sim, plural…ai barriga do papá!) tinha a primeiríssima 7 meses. Foi uma gravidez planeada e desejada. Tão desejada que…